Porque também há dias assim... de desassossego. E o Mundo acompanha-me neste meu estar, assim, levado pelo balanço...
Do Desassossego das Coisas
Caminhámos, juntos e separados, entre os desvios bruscos da floresta. Nossos passos, corrompendo a macieza das folhas maduras de Outono, marcavam a cadência uníssona de um silêncio comum, mastigado a dois. E entardecia tristemente o dia, tasquinhando os últimos raios de luz, como que a saborear perdidas migalhas de poesia.
A brisa morna profana os corpos sagrados com estiletes de desejos adulterados, num ritual cândido, em que o agreste tempo liberta a insustentável beleza dos seres, a lembrar a proximidade do Inverno. É um tempo frio este, o do Inverno, que faz da morte o seu baluarte de verdades intemporais, subterrando a vida em alvas fatias de neve estaladiça. E que é a vida, senão uma febril teia de aranha devorada por uma aragem mais rude, na fatalidade de um instante, dum dia cinzento?... Pobre Primavera que vive desta sangria da Natureza!
É pura ironia, a vida precisar da morte para viver ; não só as Estações, mas um mundo inteiro, frutificam com esta realidade. Por isso se cultiva a morte no ideário de uma sociedade, alimentada de pragmatismo e idolatria do fútil, ensurdecida pelo grito em uníssono de milhões de vozes salgadas de dor, de tanto proferir o emblemático e vital pregão «À Morte! À Morte!» - por ventura, por desventura, por fé, para salvação.
E, ao mesmo tempo que as primeiras sombras se vão tremulamente desenhando nos interstícios do caminho - prenúncio da proximidade da noite -, também o desassossego destas verdades se vai acoitando nas ramagens do desespero que, desenfreadamente, torna este « Morte à vida! Viva a morte! » num elegível chavão publicitário de uma sociedade vendida por qualquer preço onde, em bancas ensanguentadas, sobe a verde carne em flecha dia-a-dia e apodrecem campos semeados de carcaças humanas, enfeitadas de preçários rasgados a espoleta e fumo, servidas por sofisticadas necessidades - Morituri salutant !
Por isso, alimentemos essa fera esfaimada, devoradora da imortalidade, exterminadora implacável de essências, assustadoramente podres de mentiras e virtuosamente frágeis para serem estilhaçadas. Imolai, ó gentes, os inocentes no altar do infortúnio, ainda que seja em prol duma ilusão esculpida na areia de uma maré-viva, para que o mundo viva, e viva suportado por alicerces de morte profunda, tal como as Primaveras recriam os Invernos.
Por ora, resta o consolo no entardecer ensanguentado do dia, sorvendo os derradeiros matizes de um dia de Outono, que rápido se afunda no cálice negro da noite...