Bem-vindo ao blogue Encantos d'Escritos

Encantos d’ Escritos: o lugar onde se podem encontrar fragmentos e reflexos desses encantos da beleza que a criatividade da alma humana concebe nas suas múltiplas formas, através d’ escritos linguísticos e icónicos.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

BOM ANO 2011

Encanto, Encanto mesmo era o ano de 2011 ser só, só um pouco melhor do que o de 2010! E que traga Paz  e Amor ao Mundo! E já agora, que Todos possam olhar as estrelas do firmamento em liberdade...
UM BOM ANO 2011 PARA TODOS

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Encantos d' imagens - Blueberry por Gir

Porque considero este desenhador francês um artista maravilhoso, aqui ficam estas belas imagens de um dos heróis de banda desenhada mais emblemáticos de sempre, Blueberry, já considerado um clássico, pelo Grande Mestre da Banda Desenhada Mundial Jean Giraud.









Todas as imagens são da autoria de Jean Giraud, também conhecido por Gir ou ainda Moebius.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Encantos d'escrita: conclusão da história Barbo, parte 3

Com esta terceira parte, se conclui esta história de antecipação científica da saudosa Natália Correia.


Não por qualquer manifestação afectuosa mas por, uma assistência inalterável, era-me forçoso reconhecer que os yodetas punham o maior em­penho na minha aprendizagem.
Agora o processo tornara-se-me evidente. Eles não falavam nem se exprimiam por gestos. Ti­nham obviamente ultrapassado o nível humano em que a palavra se interpenetra com a vida, atin­gindo aquele Alfa do espírito em que ela se torna desnecessária. Pensavam apenas, emitindo e rece­bendo ondas carregadas de psicotrões. A minha mecânica mental impedia-me de ascender àquele tipo de comunicação. O meu cérebro era o psico­conversor e era utilizando-o que, como uma criança ou um selvagem, eu me ia gradualmente iniciando nas estruturas básicas do código.
Foi só ao fim de quinze dias que os três yode­tas perfilados na minha frente formaram o pri­meiro ideograma que pude converter numa pala­vra:
Os yodetas saudavam-me. Isso queria dizer que, a despeito dos seus rostos descarnados, uma afectividade puramente cerebral os relacionava com uma raiz humana ou algo Idêntico de que eram sem dúvida uma superação.
Este preâmbulo animador desanuviou-me o re­ceio de que a estratificação mental dos yodetas fosse impenetrável ao grau do pensamento hu­mano e, munido de uma certa confiança, passei a esclarecê-los sobre a finalidade da minha missão. Descrevi-lhes os horrores que esperavam a Humanidade arrastada para a noite cósmica, so­frendo desde há muito os efeitos da degeneres­cência gradual da energia solar, numa paisagem agónica de gelos.
Sucedeu-se uma longa pausa durante a qual experimentei todas as gamas da ansiedade.
Finalmente o psicoconversor foi impressionado por uma frase:
— Lamentamos os filhos da Terra que agoni­zam nas sombras gritando o nome do deus Barbo. Mas nada podemos fazer por eles.
Senti uma vertigem. Acabara de ouvir o meu nome mas era de um deus que falavam. A razão enredava-se-me num labirinto de interrogações. Porventura…
— Quero saber .. Quero saber… — emiti, numa reiterada sublinhação da minha angústia.
Uma breve anuência preambulou a terrível visão:
— Faremos com que vejas.
Instantaneamente uma arrepiante sucessão de imagens desbobinou-se como uma fita incandescente no meu cérebro dominado por uma força que emanava dos meus interlocutores.
Vi uma crusta gelada com esparsos rasgões onde deslizavam imensas massas de gelo que ameaçavam soldar-se, encerrando o planeta numa tumba vítrea. De nevadas cristas irradiavam rios de gelo que tinham ultrapassado as antigas divi­sórias de águas e se uniam, formando uma gigantesca rede de correntes glaciares. Vi violentas tempestades levantarem nuvens de pó das estepes e vogarem erráticas até o vento acalmar-se para caírem de novo, sepultando manadas de animais. Vi vagas de seres humanos cujas boçais fisiono­mias indicavam terem retrogradado ao nível do pleistoceno, errando em busca de sustento e de abrigo, ocultando-se, quando a noite os surpreendia, em concavidades de rochas ou em matas ra­quíticas. Vi estes seres animalescos, lambuzados do sangue das postas de carne crua onde afunda­vam as maxilas ferozes, entregarem-se a grotescas danças miméticas, praticar rituais ignóbeis e, por toda a parte, neste apocalipse de gelo, gritavam o meu nome: Barbo! Barbo! E vi uma velha des­dentada cantar, como uma sibila, a minha saga à luz de uma fogueira onde lançavam vítimas huma­nas que me sacrificavam para conjurar o advento do novo astro:
— Foi no tempo de Ergos que o Espírito da Sombra anunciou aos homens ímpios que a Terra pereceria pelo gelo. O Espírito da Luz falou então aos profetas e disse: Os puros serão salvos. No fim dos tempos enviarei o deus Barbo. O Salva­dor virá do céu num carro de fogo, trará o novo sol e a Terra voltará a dar flores.
Emergi do pesadelo e só à custa de um dolo­roso esforço readquiri o domínio da razão subitamente raptada pelos horrores que presenciara.
Era então isso? Da decomposição progressiva da civilização técnica de que eu fora um dos expoentes, ficara a recordação do meu feito, trans­mitido de geração em geração, até converter-se num mito. Na memória daqueles seres pouco mais que irracionais, a esperança do meu regresso per­sistia como a crença num deus que trazia a salvação. E ali estava eu, mesquinho e roído de im­potência, increpando os três vedetas como uma tríada sagrada, única esperança que me restava na desesperante imensidade do cosmos.
— Salvem-nos! Os germes da vida terrestre dependem da ciência que está guardada nos vossos arcanos. Em nome da fraternidade cósmica peço que me revelem o processo de reanimar o astro moribundo.
 Sem a mínima hesitação, os três yodetas entraram directamente no assunto como se abor­dassem a coisa mais simples do mundo.
— Mantemo-lo pela harmonia da vontade colectiva.
A terrível simplicidade desta revelação!
Seria possível que aquela estrela espalhasse a sua luz benéfica por um milagre de harmonia psíquica? Isso queria dizer que os Yodetas igno­ravam a fonte de onde brotava todo o nosso pro­gresso, a liberdade de imaginação desenvolvida pela magnitude do indivíduo. Isso queria dizer que todos aqueles seres não passavam de células, perfazendo na sua homogénea totalidade, o ser único.
Sentia-me perdido. Eu que me sabia agora um deus da mísera raça humana estava senhor de uma ciência que não podia oferecer à conflituosa psique terrena, alimentada pelos seus contrastes e as suas fricções homicidas e sublimes. Na vastidão do Universo eu sou um deus perdido cuja única realidade é uma mera superstição de selvagens.
 Que fazer?
Eu não posso regressar à Terra sem o facho do novo sol. Eu não posso destruir o meu mito. Eu não posso matar o deus que sou para aqueles que sobrevivem embriagados pela esperança da minha epifania.

Natália Correia, Barbo in Antologia Panorama Antecipação, «Terrestres e Estranhos», Editorial Panorama, 1.ª edição, 1968, pp. 246-256

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Encantos d' imagens - Encantos surrealistas

Descobri há tempos os encantos dos pintores surrealistas russos. Sempre gostei bastante desta corrente pictórica, especialmente de Salvador Dalí. Mas não tinha ainda descoberto que há maravilhosos pintores russos, especialmente os surrealistas. Um desses pintores, que possui inúmeros trabalhos de uma beleza extraordinária, é Jacek Yerka . Para quem não conhece, aqui ficam alguns dos seus quadros que mais gosto. Para encanto de todos os que gostam do surreal...ismo! E como elogio a este autor magnífico.














Todas as imagens pertencem ao seu autor Jacek Yerka.

Encantos d' imagens - ABSOLUTamente!

Se há campanhas publicitárias verdadeiramente artísticas, as da Absolut Vodka são das melhores que já vi e que encantam Absolutamente! Uma das primeiras campanhas desta marca de que me recordo é a relativa às cidades. Mas há outras igualmente fabulosas. São todas vodkamente de uma beleza e criatividade ABSOLUT. Aqui ficam algumas delas.























Encantos d'escrita: continuação da história Barbo, parte 2

O veredicto que Kadim acabava de pronunciar, tinha a seguinte causa:
Nos últimos anos que precederam a era de Er­gos, os velhos radiotelescópios começaram a captar uma sinalização regular, proveniente do planeta Yod, situado naquela zona que designamos por coração da galáxia. As curvas registadas apresen­tavam uma semelhança ainda que remota com o tipo ondulatório dos radiogramas encefálicos. Seguindo esta pista e baseando-me nas minhas pesquisas bioelectrónicas que concentrara nas ema­nações cerebrais, concebi o esquema de um psico­conversor cujo funcionamento logo veio confirmar as minhas suspeitas resultantes da observação das interferências verificadas no radiotelescópio. A re­petição das variações dos períodos indicava que a emissão não era fruto de uma mera fonte cós­mica de irradiação, mas produto de uma inteligên­cia cuja dinâmica cerebral se processava em ter­mos mais complexos do que os nossos.
Fiquei assim na posse de um etereoglifo cuja chave se encontrava encerrada num escrínio de trinta mil anos-luz.
A inesperada sentença que agora ameaçava as fontes da vida terrestre veio dar foros de decisiva importância à minha descoberta.
Os astrónomos tinham calculado o ritmo decres­cente da energia da estrela que aquecia o Yod e que devia acentuar-se de acordo com a média estabelecida para a digressão do potencial ener­gético das estrelas. Em determinada altura foram surpreendidos por uma estabilização inexplicável em face dos fenómenos registados nas estatísticas, e esta singularidade fazia crer que a fonte de ra­diação votada a extinguir-se fora sustentada por um processo artificial.
Seria possível arrancar à lógica misteriosa da inteligência por mim captada, o segredo dessa fí­sica transcendente para os nossos conhecimentos? A verdade é que não restava outra alternativa. E quem melhor do que eu para tentar a impon­derável aventura? Se a minha missão resultasse, voltaria quarenta mil anos antes do prazo fatídico e talvez a tempo de deter a marcha da corrupção solar.
— Sim, professor Kadim, podem contar comigo.
Ao pronunciar estas palavras, predestinava-me a perder o mundo, isto é, tudo aquilo que condicionara a minha existência. Sessenta mil anos decor­reriam na Terra, soterrando as minhas recorda­ções, tornando-me alheio à minha espécie, enquanto eu, fruindo, mercê do suspensor da actividade celular, o delírio da contracção do tempo, iria mer­gulhar num sono milenário do qual sairia para viver a fantástica aventura de um mundo impre­visível, submergindo de novo numa letargia de milénios.
O que mais me perturbou no meu primeiro contacto com os Yodetas não foi a sua estrutura basicamente humana, facto este explicável por um meio-ambiente onde eram visíveis os traços da bioquímica terrestre. Era evidente que a tétrada dos quatro elementos sustentava a vida de Yod. Espécies vegetais remotamente familiares aos meus olhos humanos, sugerindo uma aberração hierática da flora terrena, ajardinavam talhões que, numa monótona geometria se estendiam ao longo de edifícios lineares de modelo único, cujo material de um rosa-leitoso fazia pensar na qui­tessência do mármore. Estranhável era a longa estatura dos Yodetas, culminando num crânio ogi­val, desprovido de qualquer indício capilar. As narinas muito apertadas davam ao nariz, já de si excepcionalmente estreito, a configuração de lâmina. A boca limitava-se a uma breve fenda e a sua imobilidade indicava tratar-se antes de um orifício de cujo mecanismo estavam ausentes os órgãos da linguagem. No lugar dos ouvidos tinham dois pequenos lábios longitudinais, completamente cerrados, certamente vestígio de primitivas cam­pânulas de um aparelho auditivo. Só os olhos de imensas pupilas iridiscentes, pareciam concentrar a vida sensível que desertara da sua carne, apoucando-lhes os órgãos sensoriais. As túnicas trans­parentes revelavam uma nudez hirta despovoada de formas e notei com assombro que nenhum vo­lume ou detalhe capilar existia na região onde o sexo põe as suas insígnias triunfais. Eram visivel­mente assexuados e a evidente conclusão de que não se reproduziam dava-me a alarmante sensação de me achar entre criaturas imortais.
Pareceu-me admissível que este afastamento da nossa morfologia fora produzido por aquele elemento natural que designámos por espírito cuja evolução determina a transformação da natureza.
Foi no meio destes seres que não eram amá­veis nem hostis que me encontrei minutos depois da aplanetagem, quando o comando automático do suspensor da minha vida celular me despertou de um sono de trinta milénios.
Após ter concluído que o Yod continha quan­tidade de oxigénio suficiente para eu abandonar a nave, munido apenas com os meus pulmões, re­solvi enfrentar os misteriosos Yodetas. Não levei muito tempo a compreender a inutilidade de qual­quer tentativa de comunicação verbal. Nenhuma contracção na sua carne (se carne se podia cha­mar ao rígido revestimento muscular que lhes cingia a inflexível ossatura) indicava o registo de uma impressão suscitada pela minha voz. Não só se mostravam completamente surdos como não emitiam o menor som. Seriam surdos-mudos? Tal­vez me pudessem entender por gestos. Também aqui foram gozadas as minhas tentativas. Inex­pressivamente e sem revelar o menor desejo de interpretar a minha gesticuIação, os yode­tas rodeavam-me compondo à minha volta um desesperante círculo de estátuas.
Restava portanto o psicoconversor. Entrei na nave e voltei para junto deles com o aparelho que pus imediatamente a funcionar.
Então qualquer coisa aconteceu. No «écran» su­cediam-se os sinais, já meus conhecidos, todavia enigmáticos como dantes e apercebi-me que um quase imperceptível movimento se estabelecia en­tre eles, logo seguido de um gesto que interpretei corno sendo um convite. Um dos yodetas avançou para mim e tocou-me no ombro. Imediatamente puseram-se todos em marcha e eu segui-os, per­guntando-me, angustiado, se chegaria a penetrar no mistério daquele sol que irradiava uma tempe­ratura tão perfeitamente cálida, um equilíbrio térmico impensável como se a sua fornalha fosse graduada por uma sublime inteligência.
Ao fim de uma semana o espólio das minhas observações sobre os Yodetas era ainda bastante pobre.
Parecia-me contudo claro que observavam uma espécie de lei onde as antíteses não existiam desde o sexo à razão. Não eram belos nem repelentes. Eram todos iguais ou, se existiam diferenças, es­tas eram tão imperceptíveis que escapavam à mi­nha óptica humana.
Tinham-me instalado numa casa que, como todas as habitações de Yod, causava calafrios na sua despojada algidez marmórea que se tornava espectral quando, à noite, os tectos de um cristal esverdeado filtravam uma luz cadavérica. Como móveis, havia apenas no meio dos aposentos aquilo que os Yodetas deviam entender por cama, não destinada a dormir, visto que viviam em perpétuo estado de vigília, mas que utilizavam para se en­tregar a um determinado tipo de meditação. Refi­ro-me a uma espécie de leito de aparência tumular construído numa substância pétrea, desprovido de colchões, cobertas e almofadas, que forçava o corpo a uma intolerável atitude de estátua jacente. As refeições eram compostas exclusivamente de uma bebida acidulada que continha os elementos estri­tamente necessários à subsistência do corpo.
Nas minhas longas deambulações através da monotonia da paisagem arquitectónica, procurara em vão a sobrevivência de qualquer reduto onde persistisse a nota de um apego à vida vegetativa. Mas aquilo que à primeira vista podia passar pela pausa líquida de uma fonte ou o repouso verde de um jardim, produzia-me o efeito inquietante do inamovível e do eterno na sua pasmada essên­cia de coisas arrumadas na intemporalidade. Mas, para os fins que eu tinha em vista, mais exaspe­rante do que tudo era a completa ausência de qualquer vestígio de actividade técnica. Como ex­plicar então o prodigioso artifício, a misteriosa bomba que alimentava a pulsação do músculo so­lar? E se a ciência humana tivesse caído noutro equívoco? Seria eu mais uma das vítimas de um erro de cálculo? Seria inútil esta morte desperta, consciente, a que me votara para salvar um fu­turo que fora meu e de quantos o havíamos cons­truído e que era agora o presente de seres que porventura já nada tinham a ver comigo, sepa­rados de mim por trinta mil anos, cujo curso imprevisível tornara talvez sem significado o meu sacrifício?

(continuará)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Encantos d' imagens

Para além dos aspectos musicais, um dos motivos pelos quais sempre me encantei pelo grupo de rock progressivo YES foi a qualidade das capas dos seus discos, da autoria de Roger Dean, um fantástico criador de mundos e ambientes fantásticos e,  de algum modo, surrealistas. Lembrando esses tempos gloriosos do progressivo, não só dos YES mas também dos outros grupos onde os diversos membros do grupo foram ampliando o seu universo musical, como os ASIA, ou até nos álbuns de Steve Howe a solo,  aqui ficam algumas dessas imagens encantadoras, em mais uns encantos d' imagens.









De todas as obras de Roger Dean,  esta é para mim especialmente encantadora.