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Encantos d’ Escritos: o lugar onde se podem encontrar fragmentos e reflexos desses encantos da beleza que a criatividade da alma humana concebe nas suas múltiplas formas, através d’ escritos linguísticos e icónicos.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Encantos d'escrita: continuação da história Barbo, parte 2

O veredicto que Kadim acabava de pronunciar, tinha a seguinte causa:
Nos últimos anos que precederam a era de Er­gos, os velhos radiotelescópios começaram a captar uma sinalização regular, proveniente do planeta Yod, situado naquela zona que designamos por coração da galáxia. As curvas registadas apresen­tavam uma semelhança ainda que remota com o tipo ondulatório dos radiogramas encefálicos. Seguindo esta pista e baseando-me nas minhas pesquisas bioelectrónicas que concentrara nas ema­nações cerebrais, concebi o esquema de um psico­conversor cujo funcionamento logo veio confirmar as minhas suspeitas resultantes da observação das interferências verificadas no radiotelescópio. A re­petição das variações dos períodos indicava que a emissão não era fruto de uma mera fonte cós­mica de irradiação, mas produto de uma inteligên­cia cuja dinâmica cerebral se processava em ter­mos mais complexos do que os nossos.
Fiquei assim na posse de um etereoglifo cuja chave se encontrava encerrada num escrínio de trinta mil anos-luz.
A inesperada sentença que agora ameaçava as fontes da vida terrestre veio dar foros de decisiva importância à minha descoberta.
Os astrónomos tinham calculado o ritmo decres­cente da energia da estrela que aquecia o Yod e que devia acentuar-se de acordo com a média estabelecida para a digressão do potencial ener­gético das estrelas. Em determinada altura foram surpreendidos por uma estabilização inexplicável em face dos fenómenos registados nas estatísticas, e esta singularidade fazia crer que a fonte de ra­diação votada a extinguir-se fora sustentada por um processo artificial.
Seria possível arrancar à lógica misteriosa da inteligência por mim captada, o segredo dessa fí­sica transcendente para os nossos conhecimentos? A verdade é que não restava outra alternativa. E quem melhor do que eu para tentar a impon­derável aventura? Se a minha missão resultasse, voltaria quarenta mil anos antes do prazo fatídico e talvez a tempo de deter a marcha da corrupção solar.
— Sim, professor Kadim, podem contar comigo.
Ao pronunciar estas palavras, predestinava-me a perder o mundo, isto é, tudo aquilo que condicionara a minha existência. Sessenta mil anos decor­reriam na Terra, soterrando as minhas recorda­ções, tornando-me alheio à minha espécie, enquanto eu, fruindo, mercê do suspensor da actividade celular, o delírio da contracção do tempo, iria mer­gulhar num sono milenário do qual sairia para viver a fantástica aventura de um mundo impre­visível, submergindo de novo numa letargia de milénios.
O que mais me perturbou no meu primeiro contacto com os Yodetas não foi a sua estrutura basicamente humana, facto este explicável por um meio-ambiente onde eram visíveis os traços da bioquímica terrestre. Era evidente que a tétrada dos quatro elementos sustentava a vida de Yod. Espécies vegetais remotamente familiares aos meus olhos humanos, sugerindo uma aberração hierática da flora terrena, ajardinavam talhões que, numa monótona geometria se estendiam ao longo de edifícios lineares de modelo único, cujo material de um rosa-leitoso fazia pensar na qui­tessência do mármore. Estranhável era a longa estatura dos Yodetas, culminando num crânio ogi­val, desprovido de qualquer indício capilar. As narinas muito apertadas davam ao nariz, já de si excepcionalmente estreito, a configuração de lâmina. A boca limitava-se a uma breve fenda e a sua imobilidade indicava tratar-se antes de um orifício de cujo mecanismo estavam ausentes os órgãos da linguagem. No lugar dos ouvidos tinham dois pequenos lábios longitudinais, completamente cerrados, certamente vestígio de primitivas cam­pânulas de um aparelho auditivo. Só os olhos de imensas pupilas iridiscentes, pareciam concentrar a vida sensível que desertara da sua carne, apoucando-lhes os órgãos sensoriais. As túnicas trans­parentes revelavam uma nudez hirta despovoada de formas e notei com assombro que nenhum vo­lume ou detalhe capilar existia na região onde o sexo põe as suas insígnias triunfais. Eram visivel­mente assexuados e a evidente conclusão de que não se reproduziam dava-me a alarmante sensação de me achar entre criaturas imortais.
Pareceu-me admissível que este afastamento da nossa morfologia fora produzido por aquele elemento natural que designámos por espírito cuja evolução determina a transformação da natureza.
Foi no meio destes seres que não eram amá­veis nem hostis que me encontrei minutos depois da aplanetagem, quando o comando automático do suspensor da minha vida celular me despertou de um sono de trinta milénios.
Após ter concluído que o Yod continha quan­tidade de oxigénio suficiente para eu abandonar a nave, munido apenas com os meus pulmões, re­solvi enfrentar os misteriosos Yodetas. Não levei muito tempo a compreender a inutilidade de qual­quer tentativa de comunicação verbal. Nenhuma contracção na sua carne (se carne se podia cha­mar ao rígido revestimento muscular que lhes cingia a inflexível ossatura) indicava o registo de uma impressão suscitada pela minha voz. Não só se mostravam completamente surdos como não emitiam o menor som. Seriam surdos-mudos? Tal­vez me pudessem entender por gestos. Também aqui foram gozadas as minhas tentativas. Inex­pressivamente e sem revelar o menor desejo de interpretar a minha gesticuIação, os yode­tas rodeavam-me compondo à minha volta um desesperante círculo de estátuas.
Restava portanto o psicoconversor. Entrei na nave e voltei para junto deles com o aparelho que pus imediatamente a funcionar.
Então qualquer coisa aconteceu. No «écran» su­cediam-se os sinais, já meus conhecidos, todavia enigmáticos como dantes e apercebi-me que um quase imperceptível movimento se estabelecia en­tre eles, logo seguido de um gesto que interpretei corno sendo um convite. Um dos yodetas avançou para mim e tocou-me no ombro. Imediatamente puseram-se todos em marcha e eu segui-os, per­guntando-me, angustiado, se chegaria a penetrar no mistério daquele sol que irradiava uma tempe­ratura tão perfeitamente cálida, um equilíbrio térmico impensável como se a sua fornalha fosse graduada por uma sublime inteligência.
Ao fim de uma semana o espólio das minhas observações sobre os Yodetas era ainda bastante pobre.
Parecia-me contudo claro que observavam uma espécie de lei onde as antíteses não existiam desde o sexo à razão. Não eram belos nem repelentes. Eram todos iguais ou, se existiam diferenças, es­tas eram tão imperceptíveis que escapavam à mi­nha óptica humana.
Tinham-me instalado numa casa que, como todas as habitações de Yod, causava calafrios na sua despojada algidez marmórea que se tornava espectral quando, à noite, os tectos de um cristal esverdeado filtravam uma luz cadavérica. Como móveis, havia apenas no meio dos aposentos aquilo que os Yodetas deviam entender por cama, não destinada a dormir, visto que viviam em perpétuo estado de vigília, mas que utilizavam para se en­tregar a um determinado tipo de meditação. Refi­ro-me a uma espécie de leito de aparência tumular construído numa substância pétrea, desprovido de colchões, cobertas e almofadas, que forçava o corpo a uma intolerável atitude de estátua jacente. As refeições eram compostas exclusivamente de uma bebida acidulada que continha os elementos estri­tamente necessários à subsistência do corpo.
Nas minhas longas deambulações através da monotonia da paisagem arquitectónica, procurara em vão a sobrevivência de qualquer reduto onde persistisse a nota de um apego à vida vegetativa. Mas aquilo que à primeira vista podia passar pela pausa líquida de uma fonte ou o repouso verde de um jardim, produzia-me o efeito inquietante do inamovível e do eterno na sua pasmada essên­cia de coisas arrumadas na intemporalidade. Mas, para os fins que eu tinha em vista, mais exaspe­rante do que tudo era a completa ausência de qualquer vestígio de actividade técnica. Como ex­plicar então o prodigioso artifício, a misteriosa bomba que alimentava a pulsação do músculo so­lar? E se a ciência humana tivesse caído noutro equívoco? Seria eu mais uma das vítimas de um erro de cálculo? Seria inútil esta morte desperta, consciente, a que me votara para salvar um fu­turo que fora meu e de quantos o havíamos cons­truído e que era agora o presente de seres que porventura já nada tinham a ver comigo, sepa­rados de mim por trinta mil anos, cujo curso imprevisível tornara talvez sem significado o meu sacrifício?

(continuará)

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