O veredicto que Kadim acabava de pronunciar, tinha a seguinte causa:
Nos últimos anos que precederam a era de Ergos, os velhos radiotelescópios começaram a captar uma sinalização regular, proveniente do planeta Yod, situado naquela zona que designamos por coração da galáxia. As curvas registadas apresentavam uma semelhança ainda que remota com o tipo ondulatório dos radiogramas encefálicos. Seguindo esta pista e baseando-me nas minhas pesquisas bioelectrónicas que concentrara nas emanações cerebrais, concebi o esquema de um psicoconversor cujo funcionamento logo veio confirmar as minhas suspeitas resultantes da observação das interferências verificadas no radiotelescópio. A repetição das variações dos períodos indicava que a emissão não era fruto de uma mera fonte cósmica de irradiação, mas produto de uma inteligência cuja dinâmica cerebral se processava em termos mais complexos do que os nossos.
Fiquei assim na posse de um etereoglifo cuja chave se encontrava encerrada num escrínio de trinta mil anos-luz.
A inesperada sentença que agora ameaçava as fontes da vida terrestre veio dar foros de decisiva importância à minha descoberta.
Os astrónomos tinham calculado o ritmo decrescente da energia da estrela que aquecia o Yod e que devia acentuar-se de acordo com a média estabelecida para a digressão do potencial energético das estrelas. Em determinada altura foram surpreendidos por uma estabilização inexplicável em face dos fenómenos registados nas estatísticas, e esta singularidade fazia crer que a fonte de radiação votada a extinguir-se fora sustentada por um processo artificial.
Seria possível arrancar à lógica misteriosa da inteligência por mim captada, o segredo dessa física transcendente para os nossos conhecimentos? A verdade é que não restava outra alternativa. E quem melhor do que eu para tentar a imponderável aventura? Se a minha missão resultasse, voltaria quarenta mil anos antes do prazo fatídico e talvez a tempo de deter a marcha da corrupção solar.
— Sim, professor Kadim, podem contar comigo.
Ao pronunciar estas palavras, predestinava-me a perder o mundo, isto é, tudo aquilo que condicionara a minha existência. Sessenta mil anos decorreriam na Terra, soterrando as minhas recordações, tornando-me alheio à minha espécie, enquanto eu, fruindo, mercê do suspensor da actividade celular, o delírio da contracção do tempo, iria mergulhar num sono milenário do qual sairia para viver a fantástica aventura de um mundo imprevisível, submergindo de novo numa letargia de milénios.
O que mais me perturbou no meu primeiro contacto com os Yodetas não foi a sua estrutura basicamente humana, facto este explicável por um meio-ambiente onde eram visíveis os traços da bioquímica terrestre. Era evidente que a tétrada dos quatro elementos sustentava a vida de Yod. Espécies vegetais remotamente familiares aos meus olhos humanos, sugerindo uma aberração hierática da flora terrena, ajardinavam talhões que, numa monótona geometria se estendiam ao longo de edifícios lineares de modelo único, cujo material de um rosa-leitoso fazia pensar na quitessência do mármore. Estranhável era a longa estatura dos Yodetas, culminando num crânio ogival, desprovido de qualquer indício capilar. As narinas muito apertadas davam ao nariz, já de si excepcionalmente estreito, a configuração de lâmina. A boca limitava-se a uma breve fenda e a sua imobilidade indicava tratar-se antes de um orifício de cujo mecanismo estavam ausentes os órgãos da linguagem. No lugar dos ouvidos tinham dois pequenos lábios longitudinais, completamente cerrados, certamente vestígio de primitivas campânulas de um aparelho auditivo. Só os olhos de imensas pupilas iridiscentes, pareciam concentrar a vida sensível que desertara da sua carne, apoucando-lhes os órgãos sensoriais. As túnicas transparentes revelavam uma nudez hirta despovoada de formas e notei com assombro que nenhum volume ou detalhe capilar existia na região onde o sexo põe as suas insígnias triunfais. Eram visivelmente assexuados e a evidente conclusão de que não se reproduziam dava-me a alarmante sensação de me achar entre criaturas imortais.
Pareceu-me admissível que este afastamento da nossa morfologia fora produzido por aquele elemento natural que designámos por espírito cuja evolução determina a transformação da natureza.
Foi no meio destes seres que não eram amáveis nem hostis que me encontrei minutos depois da aplanetagem, quando o comando automático do suspensor da minha vida celular me despertou de um sono de trinta milénios.
Após ter concluído que o Yod continha quantidade de oxigénio suficiente para eu abandonar a nave, munido apenas com os meus pulmões, resolvi enfrentar os misteriosos Yodetas. Não levei muito tempo a compreender a inutilidade de qualquer tentativa de comunicação verbal. Nenhuma contracção na sua carne (se carne se podia chamar ao rígido revestimento muscular que lhes cingia a inflexível ossatura) indicava o registo de uma impressão suscitada pela minha voz. Não só se mostravam completamente surdos como não emitiam o menor som. Seriam surdos-mudos? Talvez me pudessem entender por gestos. Também aqui foram gozadas as minhas tentativas. Inexpressivamente e sem revelar o menor desejo de interpretar a minha gesticuIação, os yodetas rodeavam-me compondo à minha volta um desesperante círculo de estátuas.
Restava portanto o psicoconversor. Entrei na nave e voltei para junto deles com o aparelho que pus imediatamente a funcionar.
Então qualquer coisa aconteceu. No «écran» sucediam-se os sinais, já meus conhecidos, todavia enigmáticos como dantes e apercebi-me que um quase imperceptível movimento se estabelecia entre eles, logo seguido de um gesto que interpretei corno sendo um convite. Um dos yodetas avançou para mim e tocou-me no ombro. Imediatamente puseram-se todos em marcha e eu segui-os, perguntando-me, angustiado, se chegaria a penetrar no mistério daquele sol que irradiava uma temperatura tão perfeitamente cálida, um equilíbrio térmico impensável como se a sua fornalha fosse graduada por uma sublime inteligência.
Ao fim de uma semana o espólio das minhas observações sobre os Yodetas era ainda bastante pobre.
Parecia-me contudo claro que observavam uma espécie de lei onde as antíteses não existiam desde o sexo à razão. Não eram belos nem repelentes. Eram todos iguais ou, se existiam diferenças, estas eram tão imperceptíveis que escapavam à minha óptica humana.
Tinham-me instalado numa casa que, como todas as habitações de Yod, causava calafrios na sua despojada algidez marmórea que se tornava espectral quando, à noite, os tectos de um cristal esverdeado filtravam uma luz cadavérica. Como móveis, havia apenas no meio dos aposentos aquilo que os Yodetas deviam entender por cama, não destinada a dormir, visto que viviam em perpétuo estado de vigília, mas que utilizavam para se entregar a um determinado tipo de meditação. Refiro-me a uma espécie de leito de aparência tumular construído numa substância pétrea, desprovido de colchões, cobertas e almofadas, que forçava o corpo a uma intolerável atitude de estátua jacente. As refeições eram compostas exclusivamente de uma bebida acidulada que continha os elementos estritamente necessários à subsistência do corpo.
Nas minhas longas deambulações através da monotonia da paisagem arquitectónica, procurara em vão a sobrevivência de qualquer reduto onde persistisse a nota de um apego à vida vegetativa. Mas aquilo que à primeira vista podia passar pela pausa líquida de uma fonte ou o repouso verde de um jardim, produzia-me o efeito inquietante do inamovível e do eterno na sua pasmada essência de coisas arrumadas na intemporalidade. Mas, para os fins que eu tinha em vista, mais exasperante do que tudo era a completa ausência de qualquer vestígio de actividade técnica. Como explicar então o prodigioso artifício, a misteriosa bomba que alimentava a pulsação do músculo solar? E se a ciência humana tivesse caído noutro equívoco? Seria eu mais uma das vítimas de um erro de cálculo? Seria inútil esta morte desperta, consciente, a que me votara para salvar um futuro que fora meu e de quantos o havíamos construído e que era agora o presente de seres que porventura já nada tinham a ver comigo, separados de mim por trinta mil anos, cujo curso imprevisível tornara talvez sem significado o meu sacrifício?
(continuará)