Bem-vindo ao blogue Encantos d'Escritos

Encantos d’ Escritos: o lugar onde se podem encontrar fragmentos e reflexos desses encantos da beleza que a criatividade da alma humana concebe nas suas múltiplas formas, através d’ escritos linguísticos e icónicos.

domingo, 28 de novembro de 2010

Encantos d'escrita: uma história de Natália Correia

Há, sem dúvida, alguns textos ou histórias que se colam de forma indelével à nossa memória e lá ficam de tal modo alapados que o seu encantamento inicial perdura por muitos e longos anos. O texto seguinte possui esse condão mágico da perenidade no meu espírito. É uma história fascinante da consagrada escritora e poetisa Natália Correia, um dos nomes maiores da cultura portuguesa, num registo que, eventualmente, poucos lhe conhecem: o de escritora de histórias de antecipação científica. Este encanto d'escrita foi publicado numa antologia de contos da editora Panorama, «Terrestres e Estranhos», por volta do ano 1968, com o nome de BARBO. Apresenta-se aqui o texto de Natália Correia como surgiu na Antologia Panorama Antecipação, «Terrestres e Estranhos», Editorial Panorama, 1.ª edição, 1968, pp. 246-256. Devido à sua extensão, apresentá-lo-ei dividido em três partes.
Aqui fica a primeira dessas partes.

BARBO

Lembro-me que os terrestres costumavam dizer que os homens não eram deuses, frase esta que se tornou um espécie de lema moderador da arrogân­cia dos investigadores quando estes começaram a recear que a ciência fosse pura e simplesmente a potencialização do caos. Pretendiam assim os homens esquivar-se ao terror que lhes infundia a sua intuição de serem deuses porque — sei-o hoje e por experiência própria — é nisso que reside a sua, miséria e a sua impotência.
Afastei-me dos Yodetas. A sua sublime sere­nidade enlouquecia-me. Sou um indivíduo, uma coisa extravagante e subnatural para eles. Choro, grito e tenho vontade de matar. Os Yodetas são surdos. Não ouvem os meus gritos e gritar é a esperança de que alguém ouça o que não sabemos dizer por palavras. Eles não matam porque não morrem. São imortais e, como tal, ignoram o amor, o vinho que fornece aos mortais a embriaguez da sobrevivência.
Refugiei-me nos confins do planeta onde os Yodetas fizeram uma reserva-museu das últimas espécies animais que em breve se extinguirão, bombardeadas pelos raios da matéria espirituali­zada que não consente a vida vegetativa. Aqui respiro ao menos a exalação da vida animal. Se grito, os animais estacam e sei que faço palpitar algo na Natureza. Choro e reconheço que as bes­tas, mais que os humanos são sensíveis ao magne­tismo da dor. Os olhos líquidos da cabra selvagem enchem-se de luz se a afago. Recito poemas ao elefante porque descobri que dentro da medonha mole de carne pulsa um coração lírico que se deixa enternecer pelos sons que os poetas da terra cultivaram, mal sabendo que, no ocaso dos tempos para a música da sua fantasia só se abririam os ouvidos de um paquiderme. Aqui vejo mover-se a roda do sonho e da vigília, do nascimento e da morte. Sou um bicho entre outros bichos que me impõem a sua lei, perante a qual é irrisória a mi­nha velha prosápia de rei da criação.
Contudo, algures, no Universo, para milhares de seres, eu sou um deus.

Foi há seis meses, que digo?, há trinta mil anos que Kadim me procurou. O seu rosto taciturno prenunciava a gravidade do assunto que o trazia.
Sem dizer uma palavra, estendeu-me o relató­rio e ficou a observar-me com o discreto pungi­mento de uma visita de pêsames.
O conteúdo daquela folha de papel era efec­tivamente sobressaltante. Os elementos pesados sintetizados no sol tinham começado precipitada­mente a acumular-se, contrariando a teoria dos ciclos, segundo a qual estávamos ainda longe de um período de grande glaciação.
Consegui dominar o meu alarme e limitei as minhas reacções a uma simples pergunta objec­tiva:
— Que diz o oráculo?
Kadim deixou escapar uma praga que comentou logo a seguir:
— O maldito computador anuncia o pior.
— O pior? — agora a minha expressão traía uma angustiosa perplexidade.
— Sim, o pior. Desta vez a contracção do sol será progressiva. A estrela não voltará ao seu volume primitivo.
Era então o fim, considerei intimamente por­que a disciplina científica não permitia cepticismos desta ordem, impondo nas circunstâncias mais críticas uma atitude analítica da situação.
— Para quando? — perguntei.
A minha calma exemplar contaminou Kadim que me respondeu numa voz perfeitamente serena:
— Cem mil anos. Mas o «écran» dos elementos acumulados tornar-se-á opaco às radiações inter­nas do sol dentro de dez mil anos.
Fez uma pausa, durante a qual me observou de soslaio e depois proferiu a minha condenação:
— É consigo que contamos. 

(continuará)

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Encantos d'escrita: duas histórias do sol nascente

A velha sabedoria oriental sempre conseguiu, ao longo dos séculos, fazer passar os seus ensinamentos, em especial os do Budismo. Um desses modos de divulgação da mensagem budista foi através do humor e de histórias em que este mesmo humor surge cheio de efeitos  inesperados,  capazes de questionar  o pensamento lógico mais tradicional. Deste modo se divulgaram, geração após geração,  ensinamentos de vida disfarçados em pequenas histórias aparentemente inocentes,  mas sempre envoltas num subtil humor. Eis aqui duas dessas histórias , de autor anónimo, oriundas do Japão. 

QUINHENTOS VOLUMES, TRÊS PALAVRAS

Conta-se que na Pérsia antiga  existiu um rei de nome Zemir.  Tendo  sido coroado bastante jovem, achou que precisava de instrução. Reuniu à sua volta numerosos eruditos provenientes de todos os países e pediu-lhes que editassem para seu uso pessoal a história da humanidade.
Todos os eruditos se concentraram nesse trabalho. Vinte anos se ocuparam na preparação da edição do livro. Finalmente foram recebidos no palácio, carregados de quinhentos volumes acomodados no dorso de doze camelos. O rei Zemir já tinha passado dos 40 anos.
— Estou velho — disse ele. — Não terei mais tempo de ler tudo isso antes da minha morte. Nessas condições, por favor, preparai-me uma edição resumida.
Por mais vinte anos, trabalharam os eruditos na feitura dos livros e voltaram ao palácio com três camelos apenas.
Mas o rei envelhecera mais ainda. Com sessenta anos, sentia-se meio alquebrado:
— Não me será possível ler todos esses livros. Por favor, fazei-me deles uma versão ainda mais resumida.
Os eruditos trabalharam mais dez anos. Voltaram depois ao palácio com um elefante carregado de suas obras. A essa altura, com setenta anos e quase cego, o rei não podia mesmo ler. Mesmo assim ele pediu uma versão ainda mais resumida. Os eruditos também tinham envelhecido. Concentraram-se na tarefa por mais cinco anos e, momentos antes da morte do monarca, voltaram com um só volume.
— Morrerei, pois, sem nada conhecer da história do homem — disse ele.
À sua cabeceira, o mais idoso dos eruditos respondeu-lhe:
— Vou explicar-vos em três palavras a história do homem: o homem nasce, sofre e finalmente morre.
E foi nesse exacto momento que o rei expirou.

Anónimo (c. séc. VIII, Japão)


ESPELHO NO COFRE

De volta de uma longa peregrinação, um homem transportava a sua compra mais preciosa adquirida na cidade grande: um espelho, um objecto até então desconhecido para ele. Julgando reconhecer nele o rosto do pai, encantado, levou o espelho para a sua casa.
Guardou-o num cofre no primeiro andar, sem dizer nada à sua mulher. E assim, de vez em quando, quando se sentia triste e solitário, abria o cofre para ficar a contemplar "o rosto do pai".
A sua mulher reparou que ele tinha um aspecto diferente, um ar engraçado, de todas as vezes que o via descer do quarto de cima. Começou a espreitá-lo e descobriu que o marido abria o cofre e ficava demoradamente a olhar para dentro dele.
Um dia, após o marido ter saído, ela abriu o cofre, e nele, espantada, viu o rosto de uma mulher. Inflamada de ciúmes, investiu contra o marido e deu-se então uma grave discussão de família.
O marido sustentava até ao fim que era o seu pai quem estava escondido no cofre.
Por sorte, passava por ali pela casa deles uma monja. Querendo esclarecer de vez a discussão, pediu que lhe mostrassem o cofre.
Depois de alguns minutos no primeiro andar, a monja comentou ainda lá de cima:
— Ora, vocês estão a discutir em vão: no cofre não há nem homem nem mulher, somente uma monja como eu!

Anónimo (c. séc. VIII, Japão)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Encantos d'escrita: uma história fabulástica... e muito actual

Há textos que, ou pela sua simplicidade ou pela sua mensagem implícita, nos causam encantamento.
Aqui se materializarão pela palavra esses «textos encantadores» que de algum modo me foram e vão encantando.
O primeiro é uma pequena e encantadora fábula de Esopo, famoso fabulista grego que viveu por volta do ano 550 a.C., que através da sua simplicidade se revela cheia de actualidade, na moral que encerra. E apesar das fábulas de antigamente pertencerem à infância do conto, elas continuam a manifestar-nos todo o seu encanto, para nosso encantamento.

O HOMEM BOM, O FALSO E OS MACACOS
Dois homens, dos quais um era Bom e o outro era Falso, viajando juntos chegaram ao país dos Macacos. O rei destes animais mandou que eles fossem detidos e trazidos à sua presença.
— O que dizem de mim nos outros países? — perguntou-lhes.
O homem Falso respondeu-lhe desmanchando-se em elogios, dizendo que ele parecia ser um excelente monarca, sábio e poderoso, e que a sua corte estava cheia de grandes cavaleiros e valorosos capitães. O rei Macaco deliciou-se muito com tais lisonjas e ordenou que aquele homem ganhasse uma recompensa.
Considerando o homem Bom que o Falso conseguira mercês do monarca dizendo mentiras, acreditou o infeliz que seria ainda mais premiado se dissesse a verdade. E em seguida, perguntado pelo rei o que achava dele e dos que o rodeavam, o Bom respondeu sinceramente:
— Não sois todos nem mais nem menos do que macacos.
Indignado, o soberano mandou que tirassem a vida ao homem Bom.
Assim caminha o mundo comum. Quem ama ser lisonjeado não aprecia a verdade.
Esopo Fábulas (Grécia, c. 550 a.C.)

domingo, 21 de novembro de 2010

Encantos d'escritos... sem palavras!

... mesmo sem palavras! um perfeito encanto!

Thomas Blackshear, Intimacy

Em Cantos líricos

Se há capas de discos que me marcaram para sempre, uma delas foi a do grupo Queen, no News of the World. Não sei já dizer se foi pelo olhar sofrido e sentimental do robô, como se sentisse culpa pelo acto atroz de tirar a vida aos músicos da banda que acabava de cometer, ou tão-somente pelo imaginário Si-Fi a que a ilustração apelava. Naquele tempo ainda havia um Admirável Mundo Novo a descobrir em cada amanhã. Só mais tarde descobri o nome do autor da pintura: Frank Kelly Freas, famoso pelas suas ilustrações para a revista americana Astounding Science, onde havia saído inicialmente uma outra versão, a original, mais tarde adaptada para a capa do News of the World.
Aqui fica a imagem dessa memória, como saiu originalmente em álbum, que ainda conserva parte desse encanto passado.

vista exterior da capa do álbum


 vista interior do álbum


Encanto inicial

Encantos… sem palavras! 
aqui surgem aquelas imagens com que a criatividade abençoou alguns homens para conseguirem pela arte encantar o nosso olhar e nos deixarem ... sem palavras!
Com este maravilhoso trabalho "StarWatcher", do grande artista francês Jean Giraud, neste caso Moebius, inicio estes Encantos d'Escritos. Porque uma Imagem (encantada) vale mais que 1000 palavras (des)encantadas.




                                                       Moebius, StarWatcher II