A velha sabedoria oriental sempre conseguiu, ao longo dos séculos, fazer passar os seus ensinamentos, em especial os do Budismo. Um desses modos de divulgação da mensagem budista foi através do humor e de histórias em que este mesmo humor surge cheio de efeitos inesperados, capazes de questionar o pensamento lógico mais tradicional. Deste modo se divulgaram, geração após geração, ensinamentos de vida disfarçados em pequenas histórias aparentemente inocentes, mas sempre envoltas num subtil humor. Eis aqui duas dessas histórias , de autor anónimo, oriundas do Japão.
QUINHENTOS VOLUMES, TRÊS PALAVRAS
Conta-se que na Pérsia antiga existiu um rei de nome Zemir. Tendo sido coroado bastante jovem, achou que precisava de instrução. Reuniu à sua volta numerosos eruditos provenientes de todos os países e pediu-lhes que editassem para seu uso pessoal a história da humanidade.
Todos os eruditos se concentraram nesse trabalho. Vinte anos se ocuparam na preparação da edição do livro. Finalmente foram recebidos no palácio, carregados de quinhentos volumes acomodados no dorso de doze camelos. O rei Zemir já tinha passado dos 40 anos.
— Estou velho — disse ele. — Não terei mais tempo de ler tudo isso antes da minha morte. Nessas condições, por favor, preparai-me uma edição resumida.
Por mais vinte anos, trabalharam os eruditos na feitura dos livros e voltaram ao palácio com três camelos apenas.
Mas o rei envelhecera mais ainda. Com sessenta anos, sentia-se meio alquebrado:
— Não me será possível ler todos esses livros. Por favor, fazei-me deles uma versão ainda mais resumida.
Os eruditos trabalharam mais dez anos. Voltaram depois ao palácio com um elefante carregado de suas obras. A essa altura, com setenta anos e quase cego, o rei não podia mesmo ler. Mesmo assim ele pediu uma versão ainda mais resumida. Os eruditos também tinham envelhecido. Concentraram-se na tarefa por mais cinco anos e, momentos antes da morte do monarca, voltaram com um só volume.
— Morrerei, pois, sem nada conhecer da história do homem — disse ele.
À sua cabeceira, o mais idoso dos eruditos respondeu-lhe:
— Vou explicar-vos em três palavras a história do homem: o homem nasce, sofre e finalmente morre.
E foi nesse exacto momento que o rei expirou.
Anónimo (c. séc. VIII, Japão)
ESPELHO NO COFRE
De volta de uma longa peregrinação, um homem transportava a sua compra mais preciosa adquirida na cidade grande: um espelho, um objecto até então desconhecido para ele. Julgando reconhecer nele o rosto do pai, encantado, levou o espelho para a sua casa.
Guardou-o num cofre no primeiro andar, sem dizer nada à sua mulher. E assim, de vez em quando, quando se sentia triste e solitário, abria o cofre para ficar a contemplar "o rosto do pai".
A sua mulher reparou que ele tinha um aspecto diferente, um ar engraçado, de todas as vezes que o via descer do quarto de cima. Começou a espreitá-lo e descobriu que o marido abria o cofre e ficava demoradamente a olhar para dentro dele.
Um dia, após o marido ter saído, ela abriu o cofre, e nele, espantada, viu o rosto de uma mulher. Inflamada de ciúmes, investiu contra o marido e deu-se então uma grave discussão de família.
O marido sustentava até ao fim que era o seu pai quem estava escondido no cofre.
Por sorte, passava por ali pela casa deles uma monja. Querendo esclarecer de vez a discussão, pediu que lhe mostrassem o cofre.
Depois de alguns minutos no primeiro andar, a monja comentou ainda lá de cima:
— Ora, vocês estão a discutir em vão: no cofre não há nem homem nem mulher, somente uma monja como eu!
Anónimo (c. séc. VIII, Japão)
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