Com esta terceira parte, se conclui esta história de antecipação científica da saudosa Natália Correia.
Não por qualquer manifestação afectuosa mas por, uma assistência inalterável, era-me forçoso reconhecer que os yodetas punham o maior empenho na minha aprendizagem.
Agora o processo tornara-se-me evidente. Eles não falavam nem se exprimiam por gestos. Tinham obviamente ultrapassado o nível humano em que a palavra se interpenetra com a vida, atingindo aquele Alfa do espírito em que ela se torna desnecessária. Pensavam apenas, emitindo e recebendo ondas carregadas de psicotrões. A minha mecânica mental impedia-me de ascender àquele tipo de comunicação. O meu cérebro era o psicoconversor e era utilizando-o que, como uma criança ou um selvagem, eu me ia gradualmente iniciando nas estruturas básicas do código.
Foi só ao fim de quinze dias que os três yodetas perfilados na minha frente formaram o primeiro ideograma que pude converter numa palavra:
Os yodetas saudavam-me. Isso queria dizer que, a despeito dos seus rostos descarnados, uma afectividade puramente cerebral os relacionava com uma raiz humana ou algo Idêntico de que eram sem dúvida uma superação.
Este preâmbulo animador desanuviou-me o receio de que a estratificação mental dos yodetas fosse impenetrável ao grau do pensamento humano e, munido de uma certa confiança, passei a esclarecê-los sobre a finalidade da minha missão. Descrevi-lhes os horrores que esperavam a Humanidade arrastada para a noite cósmica, sofrendo desde há muito os efeitos da degenerescência gradual da energia solar, numa paisagem agónica de gelos.
Sucedeu-se uma longa pausa durante a qual experimentei todas as gamas da ansiedade.
Finalmente o psicoconversor foi impressionado por uma frase:
— Lamentamos os filhos da Terra que agonizam nas sombras gritando o nome do deus Barbo. Mas nada podemos fazer por eles.
Senti uma vertigem. Acabara de ouvir o meu nome mas era de um deus que falavam. A razão enredava-se-me num labirinto de interrogações. Porventura…
— Quero saber .. Quero saber… — emiti, numa reiterada sublinhação da minha angústia.
Uma breve anuência preambulou a terrível visão:
— Faremos com que vejas.
Instantaneamente uma arrepiante sucessão de imagens desbobinou-se como uma fita incandescente no meu cérebro dominado por uma força que emanava dos meus interlocutores.
Vi uma crusta gelada com esparsos rasgões onde deslizavam imensas massas de gelo que ameaçavam soldar-se, encerrando o planeta numa tumba vítrea. De nevadas cristas irradiavam rios de gelo que tinham ultrapassado as antigas divisórias de águas e se uniam, formando uma gigantesca rede de correntes glaciares. Vi violentas tempestades levantarem nuvens de pó das estepes e vogarem erráticas até o vento acalmar-se para caírem de novo, sepultando manadas de animais. Vi vagas de seres humanos cujas boçais fisionomias indicavam terem retrogradado ao nível do pleistoceno, errando em busca de sustento e de abrigo, ocultando-se, quando a noite os surpreendia, em concavidades de rochas ou em matas raquíticas. Vi estes seres animalescos, lambuzados do sangue das postas de carne crua onde afundavam as maxilas ferozes, entregarem-se a grotescas danças miméticas, praticar rituais ignóbeis e, por toda a parte, neste apocalipse de gelo, gritavam o meu nome: Barbo! Barbo! E vi uma velha desdentada cantar, como uma sibila, a minha saga à luz de uma fogueira onde lançavam vítimas humanas que me sacrificavam para conjurar o advento do novo astro:
— Foi no tempo de Ergos que o Espírito da Sombra anunciou aos homens ímpios que a Terra pereceria pelo gelo. O Espírito da Luz falou então aos profetas e disse: Os puros serão salvos. No fim dos tempos enviarei o deus Barbo. O Salvador virá do céu num carro de fogo, trará o novo sol e a Terra voltará a dar flores.
Emergi do pesadelo e só à custa de um doloroso esforço readquiri o domínio da razão subitamente raptada pelos horrores que presenciara.
Era então isso? Da decomposição progressiva da civilização técnica de que eu fora um dos expoentes, ficara a recordação do meu feito, transmitido de geração em geração, até converter-se num mito. Na memória daqueles seres pouco mais que irracionais, a esperança do meu regresso persistia como a crença num deus que trazia a salvação. E ali estava eu, mesquinho e roído de impotência, increpando os três vedetas como uma tríada sagrada, única esperança que me restava na desesperante imensidade do cosmos.
— Salvem-nos! Os germes da vida terrestre dependem da ciência que está guardada nos vossos arcanos. Em nome da fraternidade cósmica peço que me revelem o processo de reanimar o astro moribundo.
Sem a mínima hesitação, os três yodetas entraram directamente no assunto como se abordassem a coisa mais simples do mundo.
— Mantemo-lo pela harmonia da vontade colectiva.
A terrível simplicidade desta revelação!
Seria possível que aquela estrela espalhasse a sua luz benéfica por um milagre de harmonia psíquica? Isso queria dizer que os Yodetas ignoravam a fonte de onde brotava todo o nosso progresso, a liberdade de imaginação desenvolvida pela magnitude do indivíduo. Isso queria dizer que todos aqueles seres não passavam de células, perfazendo na sua homogénea totalidade, o ser único.
Sentia-me perdido. Eu que me sabia agora um deus da mísera raça humana estava senhor de uma ciência que não podia oferecer à conflituosa psique terrena, alimentada pelos seus contrastes e as suas fricções homicidas e sublimes. Na vastidão do Universo eu sou um deus perdido cuja única realidade é uma mera superstição de selvagens.
Que fazer?
Eu não posso regressar à Terra sem o facho do novo sol. Eu não posso destruir o meu mito. Eu não posso matar o deus que sou para aqueles que sobrevivem embriagados pela esperança da minha epifania.
Natália Correia, Barbo in Antologia Panorama Antecipação, «Terrestres e Estranhos», Editorial Panorama, 1.ª edição, 1968, pp. 246-256
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