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Encantos d’ Escritos: o lugar onde se podem encontrar fragmentos e reflexos desses encantos da beleza que a criatividade da alma humana concebe nas suas múltiplas formas, através d’ escritos linguísticos e icónicos.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Encantos d'escrita fantasticamente kafkiana

Talvez levado pelo absurdo de um ano de 2011 que promete ser absurdamente kafkiano, lembrei-me de um livro que me encantou desde a sua primeira leitura e que me levou, consequentemente,  a ler a restante obra de Franz Kafka, bem como  a ensaiar escrever pequenos escritos, levado pela pesada aragem que soprava das linhas dessa obra: A Metamorfose.





Aqui ficam algumas dessas linhas motivadas por esta obra e que sobraram dessas antigas leituras.


Saltando a barreira do irracional

O medo, de não sermos amanhã o que hoje acreditamos vislumbrar no horizonte do nosso destino, é um gume que corta a jugular da nossa identidade, a cada passo lento em direcção ao limiar do dia seguinte. O raiar da aurora pode significar o término de uma noite amorfa, frustrada de sonhos, cravejada de pesadelos angustiantes ou, por outro lado, o preâmbulo de um dia demasiadamente vago e ocupado para ser vivido. A realidade pode, às vezes, ofuscar o brilho gélido do pesadelo mais negro, sabiamente concebido para escape de uma engrenagem polida de cadáveres pútridos, de civilização e racionalidade. E é pelo sonho de que o amanhã será melhor, às vezes igual, mas raramente pior, que se acredita no Homem, no seu engenho e arte, no progresso social, civilizacional, imortal, porque seremos o Homem-deus, e tudo aquilo em que se acredita, porque se crê... simplesmente.
Um singelo olhar diário à nossa imagem reflectida no espelho, necessário a uma higiene que se quer cuidada, suscita ao próprio ou um sorriso de deleite rebelde, do mais íntimo narcisismo, ou um esgar de repúdio, pela monstruosidade esculpida por noites mal dormidas, ou ainda porque não nos é possível acreditar na justiça de um mero vidro, ainda baço pelo morno vapor higiénico. Porém, a convicta razão que atribuímos aos nossos pensamentos, sobre a nossa visão do invólucro que delimita o território da nossa identidade, pode ser horrivelmente estropiada numa manhã mais insólita. Tudo pode acontecer... mesmo essa metamorfose, tantas vezes ambicionada nos momentos mais acres da nossa existência, pode adquirir foros de agreste realismo e cruel alucinação, cruzando o limiar da irracionalidade. Tudo, o negrume da noite e a claridade do dia pode gerar, quando se é um simples peão do xadrez da vida, facilmente manipulado por desígnios sobrenaturais dum jogador que torna o amanhã tão absoluto e certo como o nosso acordar na manhã seguinte.







Se eu me deixei levar ingenuamente pela leitura desta obra ímpar, outros  souberam lê-la com mais propósito e sentido estético-literário, como é o caso do escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo, autor do texto seguinte, intitulado precisamente «Metamorfose».


                  METAMORFOSE (LUIS FERNANDO VERÍSSIMO, 2001, Brasil)

Quando Gregório Souza acordou certa manhã de uma noite mal dormida cheia de sonhos perturbadores, olhou seus pés que emergiam da outra extremidade da coberta curta e viu que tinha se transformado em Franz Kafka. Na verdade, levou algum tempo para descobrir quem era. Começou certificando-se que aqueles pés, decididamente, não eram os dele. Examinou-os com interesse e deduziu que eram pés da Europa Central, possivelmente checos. Mas só quando sua mãe entrou no quarto e ele respondeu ao seu "bom-dia!" em checo, espantando-se tanto quanto a ela, deu-se conta de quem era. Não sabia explicar como acontecera aquilo. Não só ele era Kafka como toda a situação era puro Kafka. Sua mãe gritando, perguntando quem ele era e o que estava fazendo na cama do seu filho - pelo menos ele imaginava que era isto que ela dizia, pois não conseguia entendê-la - e ele, apalpando-se, ao mesmo tempo assustado e maravilhado, eu Franz Kafka! Levantou-se da cama e foi se olhar no espelho, enquanto sua mãe corria do quarto para chamar seu pai, que chamou a polícia, que veio e cercou o prédio errado, causando uma enorme confusão no trânsito e ferimentos a bala em três pessoas, e viu que era mesmo Franz Kafka, com as olheiras e tudo. Foi preso. Tentou inutilmente se comunicar com os policiais mas nenhum falava checo ou alemão. Tentaram levá-lo para a delegacia no carro da polícia, mas nada se mexia no trânsito engarrafado e um camelô meteu a cabeça para dentro do carro e ofereceu "Saquinho de limão, doutor? Limpador de pára-brisa? Assistência legal?", que Kafka aceitou, tanto que quando os policiais decidiram bater nele ali mesmo e jogá-lo na calçada foi seu advogado que o levou a um hospital, onde ele esperou uma hora na fila de um guichê só para dizer se era conveniado ou se era pelo SUS.
Em seguida, foram à repartição competente para regularizar sua situação como estrangeiro no país e quando Kafka indicou, com gestos, que não tinha dinheiro para pagar seus serviços, já que a carteira de Gregório Souza estava vazia, o advogado sorriu, levantou a palma da mão e disse "Xacomigo". Com a situação de Kafka regularizada por meio de uma propina e um documento de identidade provisório para seu cliente comprado de outro camelô, o advogado daria entrada com um pedido de pensão da Previdência Social, pois o fato de ter-se transformado em checo da noite para o dia o abalara psiquicamente, e os dois ganhariam uma fortuna, ainda mais que o advogado tinha um cúmplice na previdência que acrescentava zeros às guias de pagamento, quanto zeros se quisesse. A todas estas Kafka tomava notas, maravilhado. Em casa, Kafka conseguiu acalmar os pais de Gregório e, com paciência, recorrendo a algumas palavras em inglês que sabia, explicou o que tinha acontecido. Para sua sorte — e para a sua surpresa, pois  antes de morrer dera ordens para que toda sua obra fosse queimada — havia um livro de Kafka numa prateleira do quarto de Gregório, com sua fotografia na capa, e os pais acabaram compreendendo que aquilo tudo era um tipo de acontecimento literário, talvez uma parábola, e que Gregório não corria perigo, salvo o de perder seu emprego na companhia de seguros. Adotaram o filho substituto. E com sua situação doméstica resolvida, o português que aprendeu ouvindo as novelas e lendo as traduções dos seus próprios livros e o dinheiro que o advogado conseguiu da Previdência — R$ 500 milhões — Kafka se sentiu em condições de recomeçar a carreira literária interrompida com sua morte. Comprou um computador e preparou-se para escrever o seu primeiro livro brasileiro, apenas duvidando que estivesse à altura da tarefa.


Sem dúvida, uma bela revisitação deste clássico da literatura universal. Como belo penso que é este trabalho visual do artista Kazuhiko Nakamura, sem dúvida baseado na obra kafkiana «A metamorfose».


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