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Encantos d’ Escritos: o lugar onde se podem encontrar fragmentos e reflexos desses encantos da beleza que a criatividade da alma humana concebe nas suas múltiplas formas, através d’ escritos linguísticos e icónicos.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Encantos d'escritos...

... meus.



O Saborear do Silêncio

Nada existe... só o Silêncio! E este lamento da vida, a escorrer pelos beirais, sob um olhar esborrachado na vidraça. Tem poesia este momento, em que os sentidos se perdem na cinza do horizonte, salpicado por miríades de gotejos d’água, luzidios como finos colares de pérolas prestes a quebrar. Cada salpico é um êxtase da Natureza... e de quem o sente, na fugacidade do momento. E a alma perde-se no turbilhão de emoções que se sentem na quietude deste lugar.
Confundindo o silêncio, derramei os sentidos numa floresta de folhas prenhe de versos, só para assistir ao parto da poesia. Não basta ler versos para se ler poesia, assim como não basta fazer amor para se amar, ou, ao fazer, ondas pretender ter criado uma tempestade. Para que tudo seja, é preciso que se sinta... E sentir é viver. Não é poeta quem faz versos, mas quem cria poesia e consegue, em momentos sublimes, compartilhá-la com aquele que a sente. E este deve saboreá-la, não pensá-la. Posso pensar que leio poesia, ao ter um livro de versos na mão, e a poesia passar ao lado no despenhar de uma bátega de chuva contra a vidraça, derretendo-se nela, tremulamente. Razão tem o Poeta, ao dizer que “há metafísica bastante em não pensar em nada”. Por isso, saborear cada momento do silêncio das coisas é comungar da sua infinitude.
E cada verso -  como estes que agora salpicam com o seu brilho intenso os meus olhos -, se derrama num rio de sensações pelas faldas da serra, acariciando seixos e vales, por ter o coração perto do mar ; e me segreda ao ouvido, sobre verdes campos e verdes prados, salpicados de amarelo e encanto; e daquele pastor esculpido no horizonte, a quem o brilho do sol recorta do rosto um nariz inchado de cheiros e aromas da serra, e por onde ponteiam, ao acaso, novelos de lã. Há poesia em ser um guardador de rebanhos que, no apascentar dos seus dias, saboreia a frescura dos regatos dourados de água e parece procurar a verdade no firmamento, sob as árvores sonolentas, para o significado das quentes tardes de Verão, para o mágico voo dos pássaros, que fogem pelos vales nos lábios do vento,  agitados pelo hálito quente de uma canção que, ao passar, espalha do pastor os seus rebanhos de pensamentos, de sonhos desfeitos pelo bafo quente do entardecer... 
Nada existe ... Só o silêncio da poesia...

   
                                                  

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